Industrialização da construção em países emergentes: desafios e oportunidades

Por
Paulo Oliveira
Pré-construção, Inovação e Industrialização
19 min de leitura

A industrialização da construção civil nos países emergentes ocorreu como parte de um processo mais amplo de modernização econômica e social, sendo influenciada por vários fatores ao longo das últimas décadas.

Em vários países, a industrialização ganhou força após a Segunda Guerra Mundial, devido à necessidade de reconstrução urgente em um cenário de escassez de recursos materiais e humanos. Portanto, trata-se de uma tendência crescente que visa aumentar a eficiência e a produtividade, bem como reduzir custos e melhorar a qualidade do ambiente construído.

Esse tem sido um tema central nas discussões econômicas globais, dado o seu potencial para transformar a maneira como as edificações são produzidas e como as cidades são planejadas. Este artigo apresenta os avanços da industrialização na América Latina e na Ásia, mostrando como a construção modular tem moldado o setor, por meio de soluções adaptadas à realidade de cada região.

Para os que não acreditavam no avanço da construção modular no mundo, a McKinsey demonstrou, em um artigo publicado em agosto de 2025 (Putting the pieces together: unlocking success in modular construction), o qual analisa uma base de dados de 700 empresas que atuam no setor de construção modular, em mais de 50 países (aproximadamente 40% a 50% do mercado), que a construção modular está em plena evolução, cumprindo a sua promessa através de respostas eficazes aos desafios mais urgentes da indústria da construção:

  1. Lento crescimento da produtividade;
  2. A escassez global de mão de obra e de moradias;
  3. Redução das emissões de CO2;
  4. Explorar a tecnologia e a digitalização;
  5. Processos de fabricação off-site;
  6. Automação e a robotização.

As empresas pesquisadas são exclusivamente modulares – ou seja: produzem módulos 3D e 2D (painéis) – e grandes construtoras que passaram a atuar na construção modular.

A pesquisa sugere que empresas com um sistema de construção robusto tendem a ter um desempenho superior, o que também se relaciona ao maior grau de controle da cadeia de valor. Dessas empresas, mais de 100 estão em operação há 50 anos ou mais e cerca de 200 empresas foram fundadas nos últimos 20 anos, o que ratifica a crescente importância da construção modular.

Neste artigo, exploraremos os fatores que impulsionam a industrialização da construção, bem como os desafios e as oportunidades envolvidas.

Fatores impulsionadores na industrialização

1. Crescimento urbano rápido e expansão do mercado interno

Muitos países emergentes experimentaram um crescimento urbano significativo, devido à migração rural-urbana em busca de melhores oportunidades econômicas. Isso gerou uma demanda urgente e crescente por habitação, infraestrutura e serviços, o que acelerou a instalação de fábricas e a industrialização da construção. O aumento da classe média e do poder aquisitivo tem criado mercados internos robustos com impacto direto no aumento da demanda por habitação de qualidade, o que também tem favorecido a industrialização.

2. Adoção de novas tecnologias

A introdução de novas tecnologias e metodologias construtivas, como o uso de pré-fabricados, de conceitos e métodos de construção off-site e, sobretudo, da construção modular, aliadas a técnicas avançadas de engenharia, como a pré-construção, a Fast Construction e o BIM (Building Information Modelling), permitiu aumentar a eficiência, a produtividade e a sustentabilidade da construção. O uso crescente da digitalização e de equipamentos mais avançados também contribuiu para dar maior consistência e para acelerar os processos construtivos.

3. Financiamento e Investimento Estrangeiro Direto (IED)

A atração de IED na construção civil foi um motor importante para a industrialização do setor em muitos países emergentes e para a transferência de tecnologias, acelerando a industrialização no setor da construção.

4. Políticas governamentais

As políticas e programas governamentais estruturados estimulam a construção por meio de subsídios, para prover infraestrutura aos setores de habitação, saúde, educação e transporte público, como também são fundamentais para financiar grandes projetos com repercussão direta no avanço da industrialização.

5. Capacitação da força de trabalho

A formação profissional voltada para as novas tecnologias construtivas e para a construção off-site e modular é essencial para formar trabalhadores com habilidades específicas relacionadas à industrialização da construção. Os montadores que atuam na construção modular, por exemplo, são os profissionais mais bem remunerados, os quais são capacitados para executar com elevada produtividade, simultaneamente, o mesmo trabalho realizado por um pedreiro, um encanador ou um eletricista em uma linha de produção industrial.

6. Necessidade de edificações mais sustentáveis e eficazes

Com a crescente conscientização para que a construção gere menor impacto ambiental, incluindo a necessidade de reduzir o desperdício e a extração de recursos naturais, muitos países emergentes passaram a adotar práticas de construção sustentável, aderentes à pauta ESG (Ambiental, Social e Governança), que resultam em soluções mais econômicas e adequadas às necessidades locais. Como consequência, as diretrizes também promovem a utilização de materiais ecológicos e de projetos que ofereçam maior eficiência hidroenergética, favorecendo a industrialização.

Exemplos de industrialização da construção na América Latina e na Ásia

América Latina

Brasil

O programa Minha Casa Minha Vida, iniciado em 2009, tem promovido a construção em massa, por meio de técnicas industrializadas e pré-fabricadas, acelerando a entrega de habitações para famílias de baixa renda e promovendo a inclusão social. Também existem avanços da construção industrializada e modular nos segmentos de obras comerciais, institucionais e industriais – um bom exemplo, são os empreendimentos logísticos.

Chile

A implementação de sistemas de construção modular, especialmente em projetos habitacionais, tem demonstrado eficiência na redução do tempo de construção e no custo final das obras, contribuindo para um planejamento urbano mais sustentável. O Chile tem registrado um aumento na adoção de sistemas modulares, que oferecem flexibilidade e adaptabilidade às necessidades urbanas e ainda melhoram a qualidade e a segurança das edificações em ambientes propensos a sismos. Por exemplo: Modular Home, Chilean Modular S.A, Casa Modular e Prefab Chile.

Uruguai

Projetos que incorporam a construção modular têm sido aplicados tanto em áreas urbanas quanto rurais, para atender à demanda habitacional crescente no país, promovendo a inclusão social ao oferecer habitações acessíveis. A flexibilidade do sistema modular também possibilita a personalização dos espaços, adaptando-se às necessidades específicas das comunidades e se tornando uma opção atraente para o desenvolvimento imobiliário sustentável.

México

A construção modular no México começou a ganhar reconhecimento nos anos 1990, quando projetos governamentais e privados começaram a buscar alternativas mais eficientes e econômicas para atender a demanda por habitação. O mercado tem se adaptado às novas tecnologias, as empresas de construção modular estão posicionadas para desempenhar um papel importante no futuro da habitação social e da infraestrutura urbana no país.

Projetos voltados para a educação e saúde também têm sido explorados. O uso do “processos BIM” tem se intensificado e colaborado para promover a industrialização e também a melhoria da qualidade. Veja algumas empresas de construção modular de destaque: Factory Modular, Grupo MRM, Dura-Slab, Modular Home e Arqmod.

Colômbia

Na Colômbia, com a expansão urbana e a necessidade de reabilitação de áreas afetadas por conflitos e desastres naturais, a construção modular tem sido utilizada para a criação rápida de moradias e de infraestrutura, como também para projetos de escolas e hospitais. O projeto “Mi Ciudad, Mi Casa”, da Prefeitura de Bogotá, visa fortalecer o sentimento de pertencimento dos habitantes, com uma abordagem de desenvolvimento social e urbano que combina sistemas modulares e materiais ecológicos.

Ásia

Cingapura

O governo vem incentivando a construção modular e investido pesadamente em tecnologias inteligentes que integram sistemas construtivos automatizados, onde a pré-fabricação de componentes permite uma redução significativa no tempo de construção, além de promover a sustentabilidade e as smart cities em um país onde o espaço urbano é muito limitado.

Índia

Na Índia, a construção industrializada está sendo adotada para atender à crescente demanda por habitação urbana. Projetos como “Pradhan Mantri Awas Yojana” utilizam tecnologias de construção rápida para fornecer moradias acessíveis e mais eficientes.

Veja algumas empresas relevantes que atuam na Índia: Larsen & Toubro (L&T), Shapoorji Pallonji Group, Mahindra Lifespace Developers, Prefab India, Siddhivinayak Construction e Bekaert.

China

A China é líder em técnicas de manufatura aditiva (impressão 3D) na construção civil e tem demonstrado também uma enorme capacidade de projetar e construir edificações modulares de forma muito ágil. Em projetos de edificações verticais para uso residencial e comercial, os chineses têm se destacado ao desenvolverem projetos e produtos inovadores de fabricação e montagem extremamente rápida.

Conheça algumas empresas de construção modular de destaque na China: China State Construction Engineering Corporation (CSCEC) – uma das maiores empresas de construção do mundo -, Broad Group – conhecida internacionalmente por suas inovações em construção modular e tecnologia de redução de carbono -, Everbright International e Zhengzhou Aishang Group – foco em moradias acessíveis e de baixo custo.

Japão

O país utiliza a construção modular há mais de 70 anos e se caracteriza por projetos meticulosos e planejamentos eficientes, sobretudo, considerando o espaço limitado nas áreas urbanas densamente povoadas. O país é conhecido pelas suas “fábricas de casas modulares”, tais como: Toyota Homes – do mesmo grupo fabricante de automóveis, embarcando muita tecnologia em seus produtos -, Daiwa House, Sekisui House e Misawa Homes.

No Japão, a construção modular ganhou muita força após a Segunda Guerra Mundial (cenário de escassez), hoje se caracteriza por uma abordagem inovadora desde o conceito/design inicial. Os japoneses possuem elevada inteligência de coordenação e construção modular, explorando plataformas de produto, cooperação entre fabricantes, linhas de produção automatizadas, mão de obra meticulosa, qualidade e personalização em massa.

Desafios para o avanço da industrialização nos países emergentes

A industrialização é crucial para o desenvolvimento econômico, mas enfrenta desafios significativos nos países emergentes.

Infraestrutura deficiente

Sobretudo, onde há elevada taxa de crescimento e maior migração da população para as zonas urbanas; há grande carência de infraestrutura de logística e de transporte (estradas, portos e ferrovias) e, ainda, de redes de energia e de comunicação, o que pode aumentar os custos e os prazos de obras, limitando o crescimento da industrialização;

Burocracia excessiva e regulamentações inadequadas

Processos burocráticos e regulamentações inadequadas causam o atraso de projetos e o aumento de custos, o que pode inibir investimentos em novas tecnologias construtivas. Reformas, como as implementadas no México, têm buscado facilitar o ambiente de negócios. No Brasil, a reforma tributária e a modernização do modelo de financiamento imobiliário para produtos da construção industrializada são medidas essenciais que também objetivam, a médio prazo, acelerar a industrialização da construção;

Desigualdade social, com impacto na educação e na capacitação profissional

A falta de acesso à educação limita a disponibilidade de profissionais em todos os níveis, para suportar o avanço da industrialização. O déficit de mão de obra capacitada para atuar na fabricação e montagem, na construção off-site e modular, tem sido um dos principais entraves à industrialização. Investir em educação e treinamento é fundamental para aumentar a disponibilidade de mão de obra qualificada, para atuar no desenvolvimento de tecnologias emergentes. Na China, por exemplo, programas governamentais foram implementados para capacitar trabalhadores no uso eficiente das técnicas construtivas modulares;

Resistência cultural

A resistência cultural à mudança nos métodos construtivos tradicionais locais dificulta a adoção de novas técnicas industrializadas. O setor de construção é reconhecido no mundo todo por sua característica conservadora e pela resistência às mudanças;

Falta de investimento em pesquisa e de programas de fomento à inovação e modernização

Em muitos países emergentes existem poucos incentivos para a pesquisa e carência de programas estruturados para o fomento ao desenvolvimento de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e automação – o que é um gargalo para a evolução da industrialização da construção;

Financiamento limitado

O acesso restrito ao crédito ou financiamento da produção também limitam o desenvolvimento da construção industrializada. Pequenos empreendedores também têm dificuldade para obter recursos financeiros para investir em tecnologias modernas. Em muitos países emergentes, os programas de financiamento imobiliário, na perspectiva dos futuros proprietários, não contemplam produtos industrializados e representam um forte obstáculo para a construção industrializada;

Questões de natureza tributária

No Brasil, a tributação penaliza a construção industrializada, com a incidência, por exemplo, de IPI e ICMS, que não se aplicam à construção tradicional. Com a conclusão da reforma tributária (2033), haverá equidade tributária entre a construção tradicional e a industrializada, mas há um longo caminho até lá.

Alguns exemplos da industrialização da construção da América Latina e Ásia

1. HIS Pradhan Mantri Awas Yojana (Índia)

 

 

 

 

 

 

2. HIS “Mi Ciudad, Mi Casa”, Prefeitura de Bogotá (Colômbia)

 

 

 

 

 

3. HIS (Chile)

 

 

 

 

 

4.  HIS (Cingapura)

 

 

 

 

5. HIS (China)

 

 

 

 

 

 

6. Toyota Homes (Japão)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Premissas que precisam ser atendidas nos projetos de industrialização da construção

Para garantir o sucesso da industrialização da construção em países emergentes, algumas premissas fundamentais devem ser atendidas:

  • Design Modular e Coordenação Modular, bem como conceitos de engenharia com soluções robustas e integradas: permitir uma construção mais rápida e eficiente;
  • ⦁ Sustentabilidade: projetos devem ser ecoeficientes, utilizando tecnologias que minimizam o impacto ambiental e promovam a economia de recursos naturais, incluindo água e energia;
  • ⦁ Espaços funcionais: as unidades habitacionais precisam ser planejadas para maximizar o uso do espaço, criando ambientes confortáveis e funcionais;
  • ⦁ Acessibilidade: projetos devem priorizar as necessidades da população de baixa renda, garantindo opções habitacionais a preços acessíveis;
  • ⦁ Integração das comunidades: além das moradias, é crucial priorizar a criação de comunidades integradas com infraestrutura adequada, incluindo serviços públicos e áreas para lazer, esporte e cultura;
  • ⦁ Testes-piloto: implementar, preliminarmente, projetos-piloto permite a análise de erros e a realização de ajustes antes de partir para a escala. Exemplo: algumas cidades da Índia iniciaram pequenas iniciativas focando a integração de tecnologia verde/sustentabilidade, visando replicá-las em maior escala posteriormente.

Conclusão

A industrialização da construção civil em países emergentes apresenta um panorama de oportunidades significativo, mas também de desafios complexos. As inovações tecnológicas e a adoção de práticas sustentáveis são essenciais para transformar o setor. Com um planejamento cuidadoso e um investimento em educação e em infraestrutura, países emergentes podem não apenas atender à crescente demanda por habitação e infraestrutura, como também promover um desenvolvimento econômico robusto, além de mais sustentável e inclusivo.

O futuro da construção civil, nessas regiões, depende de sinergia entre o desenvolvimento industrial e as necessidades sociais, com o apoio de políticas públicas adequadas, o que também resultará em ambientes mais equitativos e resilientes. Envolver comunidades no processo decisório pode facilitar a aceitação de mudanças, aumentando as chances de sucesso para os projetos a serem implementados. Por exemplo, em várias cidades brasileiras, consultorias comunitárias ajudaram a moldar melhorias urbanísticas e planejamentos, adequando as expectativas da população afetada.

Essas adaptações permitem não apenas um avanço mais fluido rumo à industrialização, mas também garantem que esse progresso seja sustentável e inclusivo dentro de contextos sociais e econômicos distintos, comumente presentes nos países em desenvolvimento.

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