A aprendizagem, especialmente em contextos técnicos, como a construção civil, não ocorre de forma linear ou passiva. É um processo ativo, construído a partir da interação entre o sujeito e os desafios que o ambiente lhe impõe. Segundo Paulo Freire, aprender é um “ato de transformação, que exige problematização da realidade, reflexão crítica e ação consciente”. Nesse sentido, melhor do que transmitir conhecimento é construí-lo a partir da experiência, da dúvida e da busca por sentido.
Complementando essa visão, Zabala propõe que o processo de aprendizagem se desenvolve em etapas interdependentes, que vão desde o enfrentamento de um problema até a avaliação da ação realizada, permitindo não apenas adquirir informações, mas também desenvolver competências cognitivas e práticas. Na construção civil, esse modelo se mostra especialmente eficaz, pois os profissionais lidam diariamente com situações que exigem análise, tomada de decisão e aplicação de conceitos técnicos em tempo real.
Por exemplo, ao enfrentar falhas na aderência de um revestimento cimentício, o engenheiro não apenas busca entender o fenômeno, mas também testa hipóteses, reflete sobre os resultados, elabora novos procedimentos e os aplica em campo, consolidando o aprendizado por meio da prática. O percurso a ser seguido é compreendido por 7 etapas, caracterizadas a seguir.
Processo de Aprendizagem: da Problematização à Experimentação
1- Problematização: tudo começa com a problematização, que é o momento em que o profissional se depara com um desafio concreto. Imagine, por exemplo, um revestimento cimentício que começa a se desprender da parede poucos dias após a aplicação. Esse problema exige atenção imediata e levanta questões sobre a aderência entre o substrato e o revestimento. A situação provoca o início do processo de aprendizagem, pois há algo que precisa ser compreendido e resolvido.
2- Significação: na etapa seguinte, chamada significação, o profissional busca informações para entender o que pode ter causado a falha. Ele consulta normas técnicas como a NBR 13749 (Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas – Especificação), revisa os procedimentos adotados na preparação da base, verifica se houve uso de ponte de aderência, analisa as condições de umidade e de temperatura no momento da aplicação e conversa com colegas que já enfrentaram situações semelhantes. Esse levantamento de dados é essencial para dar sentido ao problema e orientar os próximos passos.
3- Experimentação: com base nas informações reunidas, o profissional entra na fase de experimentação. Ele formula hipóteses — como a ausência de preparo adequado da superfície ou a aplicação em condições climáticas desfavoráveis — e testa soluções. Pode realizar ensaios de aderência em amostras, aplicar diferentes tipos de argamassa em áreas de teste ou simular o processo em laboratório para observar o comportamento do revestimento em diferentes condições.
Processo de Aprendizagem: da Reflexão à Avaliação
4- Reflexão: a 4° etapa é a reflexão, momento em que se analisam os resultados obtidos. O profissional observa quais hipóteses se confirmaram, quais não se sustentaram e o que os testes revelaram sobre o problema. No caso do revestimento, ele pode concluir que a superfície não foi devidamente limpa e que a ausência de ponte de aderência comprometeu a fixação da argamassa. Essa análise crítica é fundamental para consolidar o aprendizado.
5- Conceitualização: a partir dessa reflexão, chega-se à conceitualização. O profissional organiza o conhecimento adquirido, elabora conceitos e estabelece princípios que se aplicam em outras obras. Ele pode, por exemplo, definir um protocolo de verificação da base antes da aplicação de revestimentos. E também, incluir o uso obrigatório de ponte de aderência em determinadas situações e registrar essas diretrizes em um manual interno da empresa.
6- Ação: na etapa de ação, coloca-se esse conhecimento em prática. Em uma nova obra, o profissional aplica os conceitos elaborados: realiza inspeções rigorosas da base, garante que a superfície esteja limpa e seca, utiliza ponte de aderência conforme especificado e monitora as condições ambientais durante a aplicação. A experiência anterior transforma-se em prática qualificada.
7- Avaliação: por fim, a avaliação permite verificar se o aprendizado foi efetivo. O profissional observa o desempenho do revestimento ao longo do tempo. Verifica se houve aderência adequada, coleta feedback da equipe e compara os resultados com os da obra anterior. Assim, essa análise confirma a eficácia das ações tomadas e reforça o valor do conhecimento construído.
Eficaz em contextos técnicos
Esse modelo de aprendizagem, estruturado em etapas interdependentes, revela-se especialmente eficaz em contextos técnicos como o da construção civil. Ou seja, onde os desafios práticos exigem respostas fundamentadas e adaptáveis. Ao transformar problemas reais — como falhas na aderência de revestimentos cimentícios — em oportunidades de investigação, reflexão e ação, os profissionais não apenas resolvem questões pontuais, mas também constroem conhecimento duradouro e transferível.
A aprendizagem, nesse sentido, deixa de ser um processo isolado e passa a integrar a cultura organizacional, promovendo melhorias contínuas na qualidade das obras, na segurança dos processos e na capacitação das equipes. Mais do que adquirir informações, trata-se de desenvolver competências que permitem compreender, intervir e evoluir diante das complexidades do ambiente de trabalho.
