Estabilidade básica: ganhos rápidos e sustentáveis

Por
Flavio Picchi
Lean na construção
10 min de leitura

Na construção, é comum observarmos processos instáveis, com grandes diferenças entre o previsto e o realizado mês a mês.

As causas são muitas: falta de mão de obra, problemas com equipamentos, materiais, qualidade, segurança, entre outros. Algumas vêm de fatores externos, mas muitas têm origem interna, como falhas de planejamento, compras e projeto.

Esse costuma ser o cenário em empresas que iniciam a aplicação do lean. Embora não haja um modelo único para começar essa jornada, um bom ponto de partida é fortalecer a estabilidade básica, ou seja, criar condições para que os processos ocorram conforme o planejado.

Melhorando a estabilidade básica com os 5S e 4M+P

No sistema lean, a estabilidade básica envolve os 4Ms: Método, Mão de obra, Máquinas e Materiais, podendo incluir também Medições e Meio ambiente.

No setor da construção, acrescenta-se o Projeto, formando o modelo 4M+P, utilizado pelo Lean Institute Brasil (LIB) em diversas obras. A limpeza e a organização do local, promovidas por meio do 5S, também são fundamentais para essa estabilização.

Ações simples nessas frentes costumam gerar resultados imediatos e pavimentar o caminho para avanços maiores.

5S: muito mais que limpeza e organização

Os 5S são amplamente conhecidos, assim como seus cinco sensos definidos pelas expressões originais em japonês: seiri (utilização), seiton (organização), seiso (limpeza), seiketsu (padronização) e shitsuke (disciplina). 

Na prática, porém, essa aplicação costuma ser superficial, em ações pontuais que não se sustentam, como plaquinhas em ambientes desorganizados ou descarte de materiais que logo se acumulam novamente.

Infelizmente, muitas equipes de obra se acostumam com canteiros visivelmente desorganizados: resíduos deixados nos pavimentos, estoques improvisados e almoxarifados caóticos. Isso compromete qualidade, produtividade e segurança, inviabilizando a aplicação efetiva do sistema lean ou de qualquer outra melhoria de gestão.

Para implementar um 5S efetivo, que supere a superficialidade, é essencial que ele comece pela liderança da empresa, que precisa sinalizar que esse é um novo padrão esperado de todos — equipes de obra e empreiteiros — e que integra algo maior: uma transformação lean profunda em toda a organização, como fator de competitividade com benefícios para todos. Algumas estratégias eficazes incluem:

– definição de responsáveis por pavimento;
– padrões de limpeza diária;
– critérios para entrega de áreas entre equipes;
– instalações que facilitem a retirada de resíduos;
– estoques visuais com limites definidos;
– e auditorias rigorosas de 5S.

Sistemas de pontuação não substituem a realidade visível do canteiro: se o gestor não tem orgulho de apresentar a obra ao cliente ou à diretoria, o 5S falhou. Mais do que limpeza, o 5S bem implementado torna visíveis os padrões, facilita a gestão e impulsiona melhorias contínuas.

4M+P: estabilidade básica

Ao pensar em estabilizar a produção com base nos 4Ms, o primeiro M que geralmente vem à mente é Mão de obra, afinal, muitos serviços são terceirizados, e frequentemente cabe aos empreiteiros decidir como organizar a equipe para atingir a produção desejada.

Método: definindo a melhor forma de realizar o trabalho

No entanto, o primeiro M que devemos priorizar é o Método. Isso inclui o planejamento, tanto em nível macro quanto micro.

No nível macro, trata-se de definir a sequência dos serviços e o ritmo de evolução sem interferências, cumprindo os prazos necessários. Em muitas empresas, esse planejamento é feito longe do canteiro e acaba sendo a primeira fonte de instabilidade, pois as equipes que o executam identificam muitas incoerências.

A discussão prévia de um macrofluxo — sequência de serviços mais produtiva — e o envolvimento dos times de obra, inclusive dos principais empreiteiros, contribuem para um planejamento mais viável na prática e com menos necessidade de ajustes.

O maior desafio, no entanto, está no planejamento micro, frequentemente inexistente. Muitos gestores e obras negligenciam definições básicas sobre os serviços:

– quantos profissionais serão necessários;
– qual a melhor técnica construtiva;
– quais ferramentas usar;
– em que sequência atuar dentro de um pavimento;
– como verificar a qualidade e prevenir desvios;
– e quanto material será necessário por dia.

Formalizar e comunicar essas definições visualmente nos locais de trabalho é essencial para criar uma referência padronizada e produtiva. O acompanhamento contínuo, com ajustes e melhorias, fortalece ainda mais a estabilidade.

Mão de obra: com a produtividade planejada

A escassez de mão de obra é uma das principais causas de atrasos nas obras, resultado de fatores estruturais que exigem ações coordenadas do setor, do governo e das próprias empresas. Algumas soluções são de médio e longo prazo, como tornar o setor mais atrativo, investir em capacitação e promover a industrialização da construção.

No curto prazo, no entanto, as empresas podem adotar medidas para reduzir a instabilidade. Entre elas:
– estabelecer relações de longo prazo com empreiteiros-chave;
– manter equipes próprias em serviços recorrentes;
– apoiar o planejamento de equipes e serviços para ganhos de produtividade;
– treinar os profissionais segundo técnicas padronizadas;
– e garantir condições logísticas e de equipamentos que favoreçam a permanência das equipes na obra.

Máquinas: equipamentos e ferramentas disponíveis

Na construção, o “M” de Máquinas abrange tanto equipamentos quanto ferramentas. A escolha adequada depende do método construtivo e da busca por uma produção mais racionalizada.

O correto dimensionamento, especialmente dos equipamentos de transporte vertical, é fundamental para manter o ritmo da obra. Boas práticas incluem o planejamento antecipado da contratação desses recursos e a definição de padrões de uso, com escalas horárias por serviço.

Outro ponto crítico é a manutenção. A ausência de processos preventivos leva a quebras e atrasos. Por isso, é essencial implementar rotinas de limpeza e manutenção preventiva para garantir o funcionamento contínuo dos equipamentos.

Materiais: com qualidade, no local e no momento certos

O fornecimento irregular de materiais é uma das principais fontes de instabilidade em obras. Atrasos, quantidades incorretas e problemas de qualidade afetam diretamente o ritmo dos serviços. Entregas em grandes lotes geram acúmulo, deterioração e desorganização no canteiro. Além disso, fluxos confusos obrigam os profissionais a perderem tempo se deslocando em busca de materiais.

Para melhorar essa estabilidade, algumas ações eficazes incluem:
– firmar parcerias com fornecedores principais e entregas frequentes em diversas obras;
– adaptar o layout do canteiro às fases da obra, com locais e rotas definidos;
– implementar controle de qualidade no recebimento;
– usar controle visual de estoques e kanban;
– montar kits de materiais entregues diariamente por movimentadores;
– e envolver os almoxarifes no acompanhamento das entregas com apoio de gestão visual.

Projeto: definições claras no tempo certo

Boa parte da instabilidade nas obras decorre de falhas no projeto. O início de obras sem projeto executivo, interferências entre disciplinas, atrasos nas entregas e alterações frequentes resultam em esperas e retrabalhos.

A solução começa com uma coordenação e compatibilização eficazes, algo muito facilitado pelo uso do BIM ou Modelagem da Informação da Construção, um processo que utiliza modelos digitais 3D para gerenciar informações sobre um projeto de construção, abrangendo todas as etapas, desde o projeto até a operação e manutenção

Também é fundamental racionalizar os fluxos de informação, mapeando desde a incorporação e aprovação até o detalhamento e liberação dos projetos, conforme a necessidade de cada fase da obra.

Estabilidade básica: resultados imediatos e base para saltos maiores

Produtividade, qualidade e segurança são inviáveis sem um mínimo de estabilidade. Aplicar o 5S e o 4M+P desde o início ajuda a “colocar a casa em ordem”, gerando ganhos rápidos de produtividade e previsibilidade.

Essas práticas naturalmente conduzem à adoção de rotinas lean, como planejamento semanal e diário e análise antecipada de restrições — sustentando o tratamento contínuo dos 4M+P e a manutenção do 5S.

Além dos resultados imediatos, essa base consolida uma cultura de exposição de problemas e busca por melhorias, fundamental para uma jornada lean mais ampla e consistente em toda a empresa.

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