O Japão tem muitos pontos interessantes para discutir a presença ou ausência de práticas de ESG (Environmental, Social, and Governance/Ambiental, Social e Governança). Recentemente estive lá em férias com a família, e aproveitei para observar o ESG no dia a dia.
Vale ressaltar que este artigo não é estudo científico, mas minha visão após visitar algumas cidades como Tóquio, Osaka, Akihabara e Hiroshima.
Ambiental (E): Eficiência e Consciência Coletiva
Falta de Lixo nas Ruas
A ausência de lixeiras públicas e, ainda assim, a limpeza impecável das ruas demonstra uma forte consciência coletiva e um rigoroso sistema de descarte de lixo, provavelmente ligado a um processo complexo de reciclagem.
O compromisso com o meio ambiente lá é cultural, mesmo que não seja explicitamente rotulado como “ESG”. A responsabilidade individual e comunitária superam a necessidade de lixeiras. Como turista, adaptei-me e já saia do hotel com saquinhos na bolsa para guardar o lixo e descartá-lo em alguma loja de conveniência.
Eficiência Energética e Tecnológica
O Japão é líder em tecnologia em várias áreas e muitas de suas inovações visam à eficiência energética. O trem-bala (Shinkansen), por exemplo, é projetado para ser eficiente, com um sistema que levita o trem acima dos trilhos, eliminando o atrito e a resistência que normalmente consomem energia.
Os edifícios modernos em Tóquio e Osaka frequentemente incorporam tecnologias de baixo consumo de energia. É a inovação impulsionada pela necessidade de recursos limitados.
Social (S): Coesão e Desafios
Silêncio e Respeito no Metrô
O comportamento no metrô, marcado pelo silêncio e o respeito, evidencia uma forte consideração pelo bem-estar coletivo, e contribui para a qualidade de vida nas cidades.
Superlotação no Metrô (Tóquio e Osaka)
O funcionamento eficiente mesmo com a superlotação reflete uma infraestrutura social bem gerenciada. Mas, me questionei se o excesso de passageiros e de viagens de metrô não poderiam ser estressantes, pois nos passeios após as 23h, todo aquele silêncio durante o dia desaparecia, com pessoas falando alto e muitas vezes alcoolizadas. Eu, particularmente, fiquei bem cansada de andar de metrô.
Memória Histórica e Paz (Hiroshima)
O Parque Memorial da Paz e o Museu da Paz, exemplificam como o país lida com seu passado trágico. A dedicação à paz e à não-proliferação nuclear são valores sociais comprometidos com o futuro da humanidade e alinhados ao ESG.
Governança (G): Estrutura e Inovação
Burocracia
O Japão é extremamente organizado, mas a rigidez pode atrapalhar na agilidade. Não há “jeitinho”. Vivi uma situação com minha nora grávida que evidenciou isso. Chegamos 90 minutos antes no hotel e pedi para entrarmos antes, pois era tarde da noite. A primeira resposta foi “não”, aí chamaram um gerente, que explicou exatamente a mesma coisa e falou “não”, e aí veio um supervisor, que repetiu tudo e após 30 minutos disse “não”. Achei válido seguirem as regras, mas senti uma burocracia e perda de tempo desnecessárias.
O Conceito de “Sanpo Yoshi”
Significa “benefício para os três lados” (vendedor, comprador e sociedade). Embora não seja ESG no sentido moderno, encapsula a ideia de responsabilidade social e sustentabilidade muito antes de o termo ser criado, mas mesmo assim, a regra sem exceção incomoda um pouco.
Contradições
Apesar da limpeza impecável e o respeito pelo próximo (silêncio no metrô), há contradições curiosas. No metrô, se você está sentado no meio dos bancos, por exemplo, o passageiro chega e simplesmente senta, quase que no seu colo. Me fez pensar se na cabeça deles, você estaria violando uma regra de espaço, ocupando o banco de forma errada.
Ainda sobre minha nora grávida, apesar de ter bancos específicos no metrô para prioridades, ela só existe se você pede para a pessoa levantar, caso não peça, o jovem fica no banco prioridade e a grávida ou o idoso, em pé. Além disso percebi muitos desafios em termos de inclusão. Muitas escadas para todos os lugares e elevadores nem sempre bem sinalizados.
Conclusão
E um destaque final e impressionante eu deixo para os banheiros. Não sei se entra em “E, S ou G”, mas a limpeza dos banheiros em qualquer lugar, com aquelas duchas higiênicas acopladas, com som de cachoeira e aquecimento no assento, e secador, é algo inacreditável.
Eu entendi aquilo como um “S” de preocupação com o bem-estar do ser humano e com o “G”, de agradar o cliente. Já em relação ao “E”, imagino que o consumo de água e de energia sejam bem maior com tudo aquilo.
De qualquer forma, foi uma experiência cultural incrível e uma oportunidade de refletir sobre o ESG por lá.
