Como usar os conceitos e práticas da logística lean para potencializar a produtividade nos canteiros de obras, substituindo processos fragmentados por um fluxo puxado e padronizado e garantindo que materiais cheguem à mão do trabalhador no momento exato e em pequenos lotes.
Planejamento e Eficiência com Logística Lean
A eficiência da logística lean em um canteiro de obras não pode ser fruto do acaso ou do improviso. Ela deve ser resultado de um planejamento rigoroso, que abrange aquisição, armazenagem e movimentação de materiais, equipamentos e pessoas — funcionando como um eficiente sistema circulatório de um organismo vivo.
No entanto, não é raro perceber que, embora a logística lean seja considerada por construtoras como um fator fundamental, na prática cotidiana, esse processo se apresenta de forma fragmentada.
Uma logística mal planejada e desarticulada gera ineficiências na movimentação horizontal e vertical. Ou seja, cria-se gargalos impedindo que o material chegue às diferentes frentes de maneira fluida e oportuna.
Além disso, gera conflitos constantes entre equipes, prejudicando fortemente o andamento da obra. Nesse cenário desafiador, a implementação dos conceitos e práticas do sistema lean oferecem uma solução transformadora para a efetividade das obras e para o aumento real da produtividade.
Trabalho Padronizado: O Alicerce Lean
Para compreender como essa dinâmica se aplica, é preciso resgatar o conceito lean de trabalho padronizado — citado em coluna anterior: “Planejamento detalhado do trabalho garante a produtividade”.
Em outras palavras, o conceito define, em detalhes, como as atividades serão desenvolvidas pelas equipes. Também estabelece o ritmo e quais são os ciclos que definem onde cada trabalhador está e o que ele faz em todos os momentos da jornada. Isto é, bem como os recursos necessários para cumprir sua tarefa.
Portanto, essa definição de ritmo é a base essencial para a logística lean. Afinal, com esse entendimento, pode-se analisar como planejar tanto a logística interna, que compreende a movimentação dos materiais dentro do canteiro, quanto a externa, focada no relacionamento estratégico com os fornecedores. Para que, desse modo, os insumos cheguem à obra no momento exato.
Logística Interna: Materiais Sempre à Mão
No âmbito da logística interna, a premissa de manter o material o mais próximo possível da aplicação parece óbvia, mas raramente é observada com o rigor necessário.
Numa metáfora apropriada, a logística lean prioriza, antes de tudo, que as pessoas que trabalham como cirurgiões recebam todos os instrumentos e materiais necessários diretamente em mãos, sem precisar interromper a cirurgia para buscar equipamentos ou insumos.
Em outras palavras, é isso que a logística lean busca fazer: entregar na mão do oficial o que ele precisa, na hora necessária. É comum ver oficiais e ajudantes em grandes deslocamentos, para buscar materiais em diferentes pontos da obra. Isso é um desperdício clássico de tempo e energia.
O sistema lean prioriza elaborar rotas de abastecimento e criar a função específica de “movimentadores de materiais”. Esses profissionais, na véspera ou durante o dia de trabalho, colocam os insumos conforme o consumo planejado, posicionando-os próximos das equipes e em locais previamente determinados.
Formação de Kits de Materiais
Outra estratégia vital nesse processo é a formação de kits de materiais. Para a realização de qualquer serviço, um conjunto diversificado de itens é necessário. No caso do revestimento cerâmico, por exemplo, não basta que as peças estejam disponíveis.
Isto é, precisa-se que a argamassa, os espaçadores e outros itens auxiliares cheguem simultaneamente. Afinal, de nada adianta o material principal estar no local, se um item secundário faltar.
Assim, a logística lean utiliza a formação de kits completos, que o profissional precisará, para executar uma unidade de trabalho — como, por exemplo, a meta de um dia. Esses kits são padronizados e quantificados, facilitando a distribuição organizada no pavimento.
Para que essa movimentação seja eficiente, o planejamento deve incluir equipamentos de transporte adequados. Para a distribuição de kits ou de materiais a granel, o uso de carrinhos paleteiros (usados para movimentar pallets, gaiolas e outros dispositivos específicos) facilita o transporte horizontal e reduz o esforço físico.
Transporte vertical no conceito lean
Complementar a isso, a gestão do transporte vertical exige regras claras de uso. O uso de elevadores e cremalheiras é uma das maiores preocupações de qualquer engenheiro, por isso, deve ser definida logo no planejamento inicial.
No entanto, muitos falham ao não estabelecer regras disciplinares para o manejo cotidiano. Uma forma eficaz de resolver esse conflito é definir horários de prioridade para transportes de pessoas e para materiais específicos, em diferentes períodos do dia.
E dessa maneira, sustentando essa organização com gestão visual, comunicação e disciplina. Tudo isso com o devido alinhamento entre a gestão da obra e todas as equipes e operadores envolvidos.
Layout do Canteiro e Fluxo Puxado
Desse modo, tudo converge para o layout do canteiro, um fator que exige atenção constante. A visão lean enfatiza o entendimento profundo dos fluxos de materiais, desde o momento da chegada até a colocação final no pavimento. Passando, assim, se necessário, por armazenamento intermediário.
Com a definição de entregas em pequenos lotes, o planejamento por fases se torna mais assertivo. Isto é, sendo “puxado” pelas quantidades diárias e semanais que cada equipe demanda.
O uso de ferramentas como as Linhas de Balanço serve para visualizar o ritmo entre as equipes e para definir as necessidades e os fluxos, que mudam conforme a evolução da obra e geram layout evolutivo para cada fase.
Conceito Lean na Logística Externa
Na logística externa, a estabilidade do processo de compras é um ponto de partida importante. Para a distribuição adequada dos materiais, eles precisam ser entregues no canteiro no momento correto.
O relacionamento entre o setor de compras e a obra é um tradicional ponto de atrito, entretanto, isso deve melhorar com o uso dos conceitos e práticas lean. Por exemplo, como o mapeamento e simplificação do fluxo da informação entre obra, compras e fornecedores.
O uso cada vez maior de tecnologias, como BIM, softwares específicos de planejamento e compras, e inteligência artificial, é um grande facilitador. Todavia, sua aplicação em fluxos não otimizados trará resultados limitados.
Estratégias como contratos guarda-chuva e parcerias de longo prazo, usando o conceito de parceria bastante enfatizado no lean, são também ferramentas úteis para garantir colaboração e estabilidade.
Além disso, o planejamento puxado e o gerenciamento de restrições, outros elementos bastante disseminados do lean construction, ajudam a antecipar e a prevenir problemas de contratação não realizada no momento necessário.
O ideal é que os acordos de entrega sigam o modelo just in time, expressão que significa, literalmente, “no momento certo” ou “na hora exata” — uma das bases do sistema lean.
Nesse sentido, os fornecedores precisam entregar os materiais em pequenos lotes. Aliás, sempre que possível, em embalagens ou agrupamentos que permitam subir diretamente para o pavimento, sem a necessidade de estocagem intermediária.
Gestão Lean: Organização dos Almoxarifados
Por fim, a organização dos almoxarifados também ganha uma nova dinâmica na gestão lean. Os almoxarifes, nas implementações lean, geralmente se envolvem com entusiasmo nas rotinas. Bem como na gestão visual para acompanhamento da previsão de entregas, preparação de kits e na aplicação dos 5S.
De fato, encontra-se rapidamente materiais bem organizados, identificados e seguindo a lógica de armazenamento “primeiro que entra – primeiro que sai”. Evitando, assim, atrasos na disponibilização para as equipes. Além disso, também minimizando perdas por danos ou vencimento de validades.
Conceito e Práticas Lean: Pilares da Logística
Esses conceitos e práticas lean são apenas alguns dos pilares que podem transformar a logística interna e externa na construção. Em resumo, o princípio básico de manter um sistema puxado, de operar com pequenos lotes e de facilitar o trabalho das equipes, mantendo o material próximo da aplicação, é fundamental para qualquer obra que busque a excelência.
Embora precisem de adaptação para cada situação, esses fundamentos são o caminho mais seguro para uma construção civil produtiva e eficiente.
Clique aqui e acompanhe a coluna de Flávio Picchi e descubra como o conceito lean pode transformar a logística interna e externa de obras no seu dia a dia. Fique por dentro das melhores práticas para inovar e alcançar resultados consistentes na construção civil.
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Por Flávio Picchi, Senior Advisor do Lean Institute Brasil (LIB)
