Enquanto a construção industrializada, o BIM e a inteligência artificial transformam o setor, a formação acadêmica brasileira ainda prepara profissionais para um mercado que está ficando para trás.
A construção civil brasileira atravessa uma das maiores transformações de sua história. Industrialização, BIM (Building Information Modeling), inteligência artificial, automação, sustentabilidade e construção modular deixaram de ser tendências para se tornarem exigências reais de competitividade.
O setor cresceu 4,1% em 2023 e projeta cerca de R$ 600 bilhões em investimentos entre 2025 e 2028. Ao mesmo tempo, novas tecnologias vêm redefinindo a forma de projetar, fabricar e construir.
No entanto, existe um desafio silencioso que preocupa empresas, especialistas e lideranças do segmento: a formação dos futuros profissionais não acompanha a velocidade dessa transformação.
É justamente sobre esse cenário que a OFFSITE Decor chama atenção ao observar diariamente as demandas de indústrias, incorporadoras, arquitetos, engenheiros e fornecedores de tecnologia que compõem o ecossistema da construção industrializada.
Continue lendo para entender os dados, desafios e oportunidades que moldam o futuro da construção civil no Brasil.

Indicativos: O cenário da formação e do mercado
Dados recentes mostram a dimensão do desafio:
– 43,6% dos cursos de Engenharia Civil possuem BIM na grade curricular (ENEBIM 2025);
– 50,8% dos cursos de Arquitetura e Urbanismo com conteúdo BIM atualizado (ENEBIM 2025);
– 20,6% das empresas de construção civil utilizam BIM — alta de 9,2% em 2018 (FGV IBRE, 2024);
– 61,5% das empresas ainda não utilizam qualquer ferramenta BIM (FGV IBRE, março 2024);
– 463 cursos de Engenharia Civil e Arquitetura estão sendo mapeados na maturidade BIM pelo governo federal (BIM Fórum Brasil / MEC, 2025);
– R$ 600 bi em investimentos previstos para o setor de construção entre 2025 e 2028 (BrainMarket / CBIC, 2025);
– +5,7 mil unidades habitacionais em déficit, contexto que exige industrialização em escala (Ministério das Cidades, 2025).

O mercado evolui mais rápido do que as universidades
Dados apresentados durante o Encontro Nacional sobre o Ensino de BIM (ENEBIM 2025) revelam que apenas 43,6% dos cursos de Engenharia Civil possuem conteúdos relacionados ao BIM em suas grades curriculares. Similarmente, nos cursos de Arquitetura e Urbanismo, esse índice chega a 50,8%.
Embora representem avanços importantes, os números mostram que grande parte dos futuros profissionais ainda conclui a graduação sem contato adequado com uma das principais metodologias utilizadas atualmente pelo mercado.
A situação se torna ainda mais preocupante quando o assunto envolve sistemas construtivos industrializados, como steel frame, wood frame, construção modular, pré-fabricados, Digital Twins e inteligência artificial aplicada à construção. Visto que, na maior parte das universidades brasileiras, esses temas ainda não fazem parte da formação obrigatória.
Em outras palavras, milhares de profissionais ingressam no mercado todos os anos sem domínio das ferramentas e processos que já impulsionam a nova geração da construção civil.

A escassez de profissionais já é realidade
A falta de mão de obra qualificada deixou de ser uma preocupação futura para se tornar um problema atual. Em 2026, Carlos Eduardo Lima Jorge, presidente da Comissão de Infraestrutura da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), afirmou que a dificuldade para encontrar profissionais qualificados já afeta diversas áreas do setor, incluindo engenheiros.
O problema ocorre justamente em um momento de forte expansão da construção civil brasileira. Além dos investimentos previstos para os próximos anos, o país ainda enfrenta um déficit habitacional superior a 5,7 milhões de moradias, cenário que exige ganhos de produtividade, industrialização e novas tecnologias para ampliar a capacidade de entrega do setor.
Para especialistas, a falta de profissionais preparados pode se tornar um dos principais obstáculos ao crescimento sustentável da construção brasileira.

O desafio não é tecnológico: é humano
Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), realizada em março de 2024, mostra que 20,6% das empresas da construção civil já utilizam BIM, mais que o dobro do registrado em 2018.
Por outro lado, 61,5% das empresas ainda não utilizam a tecnologia. Sobretudo, o principal motivo apontado pelas organizações não é o custo dos softwares ou a infraestrutura tecnológica.
Afinal, a principal barreira é a falta de conhecimento técnico e de profissionais capacitados. Esse dado reforça um problema estrutural: a tecnologia está disponível, mas a formação necessária para utilizá-la ainda não acompanha a velocidade da transformação do mercado.

O futuro da construção será cada vez mais industrializado
Ao redor do mundo, países como Estados Unidos, Reino Unido, Singapura e diversas nações europeias já incorporaram conceitos como BIM, Design for Manufacturing and Assembly (DfMA), Lean Construction e construção modular aos currículos universitários.
No Brasil, esse movimento ainda acontece de forma lenta. O próprio governo federal reconheceu a necessidade de compreender essa realidade. Em 2025, os Ministérios da Educação, da Gestão e Inovação e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços iniciaram um levantamento nacional para mapear a maturidade BIM em 463 cursos superiores e técnicos ligados à construção civil.
A iniciativa integra a Nova Estratégia BIM BR e busca identificar o nível de preparação das instituições de ensino para atender às demandas da transformação digital do setor.
As competências da nova construção
O profissional que deseja atuar de forma competitiva nos próximos anos precisará dominar competências que vão muito além dos métodos construtivos tradicionais. Entre elas estão:
- BIM e integração digital de projetos
- Inteligência artificial aplicada à construção
- Design generativo e otimização paramétrica
- Construção industrializada
- Steel Frame e Wood Frame
- Construção modular e offsite
- Lean Construction
- ESG e sustentabilidade
- Digital Twins (Gêmeos Digitais)
- DfMA (Design for Manufacturing and Assembly)
Apesar da crescente relevância dessas competências, muitas delas ainda não integram sequer disciplinas optativas em grande parte dos cursos brasileiros.
Uma oportunidade estratégica para o Brasil
Para a OFFSITE Decor, o momento exige uma aproximação cada vez maior entre universidades, indústria e mercado. De fato, mais do que uma questão acadêmica, trata-se de uma oportunidade estratégica para aumentar a produtividade do setor, reduzir desperdícios, acelerar a inovação e preparar o país para os desafios das próximas décadas.
Segundo Felipe Storino, CEO da OFFSITE Decor:
“O Brasil está construindo o futuro com profissionais formados para o passado. Enquanto o setor industrializa processos, digitaliza projetos e adota sistemas modulares em escala, a universidade ainda ensina o estudante a improvisar no canteiro.
Esse descompasso não é só um problema acadêmico, é um risco estratégico para a competitividade do país. A Offsite Decor existe para conectar quem já está no futuro com quem ainda está chegando lá. E parte fundamental desse trabalho é colocar esse debate na mesa.”

Conclusão
A construção civil brasileira está entrando em uma nova era, marcada pela industrialização, digitalização e integração tecnológica. O desafio agora não é apenas desenvolver novas soluções, mas garantir que existam profissionais preparados para aplicá-las.
Enquanto o mercado acelera sua transformação, a formação acadêmica ainda busca acompanhar esse movimento. A pergunta que fica é simples: estamos preparando os profissionais que irão construir o futuro ou ainda estamos formando especialistas para um mercado que já começou a ficar para trás?
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