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Petrobras foca pré-sal no Rio e esvazia litoral de São Paulo – Sindicatos reclamam de transferências de pessoal e prefeitura de Santos quer diálogo

Com a concentração das operações do pré-sal no Rio, a Petrobras vem reduzindo sua estrutura no litoral paulista, que já foi visto como um foco de expansão das atividades da estatal. A decisão gera protestos de sindicatos e da prefeitura de Santos, que teme perder empregos e renda.

Na semana passada, a companhia abriu processo de venda de uma de suas concessões exploratórias no litoral paulista, em mais um passo para concentrar esforços nos maiores campos do pré-sal — que, apesar de ficarem na Bacia de Santos, estão em frente ao litoral carioca.

Ainda na gestão Temer (MDB) , a empresa já havia vendido fatias em outros dois projetos no litoral de São Paulo: o campo de Carcará foi comprado pela norueguesa Equinor e a francesa Total ficou com 35% do campo de Lapa, assumindo a operação que era da Petrobras.

Apesar de a mudança de estratégia ter sido iníciada há dois anos, quando a companhia desativou a base de embarque de trabalhadores para plataformas marítimas em Itanhaém. ganha força na gestão atual, com a transferência de trabalhadores.

De acordo sindicatos de petroleiros ouvidos pela Folha, a Petrobras agora está realizando milhares de transferências e demissões de funcionários, mesmo em meio à pandemia da Covid-19, em todo o Brasil. Um dos locais mais afetados é a Baixada Santista.

As transferências vêm ocorrendo desde o fim do ano passado, quando a Petrobras mandou 74 empregados para o Rio, diz o Sindipetro Litoral Paulista. Agora, transferiu mais 937 para a capital fluminense. Segundo o diretor do sindicato Marcelo Juvenal, são engenheiros, geólogos e técnicos que cuidam do pré-sal.

A prefeitura de Santos se manifestou contrária à transferência de trabalhadores para o Rio e vem buscando diálogo com a estatal visando a permanência e o fortalecimento das atividades do pré-sal na cidade.

“O prédio da Petrobras está instalado no centro histórico de Santos, região que está passando por um amplo projeto de revitalização”, disse o prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB). “A permanência do edifício da estatal, preservando suas atividades e empregos, é fundamental para a cidade e sua economia.”

A estatal diz que não há decisão pela desativação do edifício, que foi inaugurado em 2006, na esteira de um processo de expansão de sua estrutura administrativa que acabou investigada pela Operação Lava Jato, por suspeitas de corrupção na construção de sedes em Vitória e Salvador, por exemplo.

A companhia alega ainda que as transferências envolvem pessoas que trabalham em plataformas e não necessariamente vivem em Santos, mas se apresentavam na cidade antes do embarque. Como os embarques foram concentrados no Rio, passaram a se apresentar na capital fluminense.

A preocupação entre as autoridades santistas, porém, é que o movimento se amplie a ponto de causar efeitos na economia da cidade. “Além dos empregos diretos, de funcionários que já estão instalados no município, existe toda uma cadeia de fornecedores, com empregados terceirizados que dão suporte aos serviços operacionais da unidade”, diz o prefeito Barbosa.

Na Câmara Municipal, o vereador Ademir Pestana (PSDB) apresentou uma moção de repúdio contra a possibilidade da Petrobras de transferir suas atividades para o Rio de Janeiro, abandonando as atividades no município.

Segundo estudo do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais), encomendado pelo sindicato dos petroleiros do litoral paulista, a saída da estatal da Baixada Santista provocaria perdas superiores a R$ 300 milhões anuais para a economia da região.

O valor considera gastos dos trabalhadores, contratados ou terceirizados, e seus familiares com habitação, despesas correntes, transporte, alimentação, saúde, educação, vestuário, higiene, recreação, cultura e outros. O estudo também alerta para quebra de empreendedores da região.

Até os governos petistas, a estatal tinha grandes planos para a Baixada Santista. Abriu uma base de transporte aéreo para plataformas no aeroporto de Itanhaém e chegou a falar em modernização do aeroporto de Guarujá.

A empresa planejava ainda implantar uma infraestrutura portuária para movimentar insumos e equipamentos para as plataformas em alto-mar. Chegou a anunciar, em 2014, o início desse tipo de operações em São Sebastião, onde está o maior terminal de petróleo do país.

Com a confirmação das reservas gigantes em frente ao litoral do Rio, porém, os planos foram revistos. O transporte de passageiros para o pré-sal é concentrado no aeroporto de Jacarepaguá, na capital fluminense, e o de suprimentos é feito a partir de bases de apoio na Baía de Guanabara e no litoral norte do Rio.

No litoral paulista, a empresa opera hoje apenas duas plataforma no pré-sal, instaladas no campo de Sapinhoá, o terceiro maior produtor do país, que está localizado em frente a Ilhabela. Os dois maiores, Lula e Búzios, ficam em frente a Maricá (RJ) e têm hoje nove plataformas. Maior reserva de petróleo do país, Búzios receberá outras oito unidades.

O consórcio Voa SP, que administra o aeroporto de Itanhaém, diz que a saída da Petrobras “gerou um profundo impacto” não só em suas atividades, “mas também em toda a região que estava intimamente ligada a atividades de apoio às plataformas”.

A cidade chegou a ter 40 voos diários para plataformas de petróleo, mas hoje não tem nenhum. O consórcio diz que espera atrair empresas privadas que arremataram áreas do pré-sal nos últimos leilões de blocos esploratórios realizados pelo governo, ao mesmo tempo em que trabalha para ampliar a atividade com voos comerciais.

O foco nos maiores campos do pré-sal vem provocando também a redução das operações da Petrobras em outras partes do país. A empresa decidiu sair de negócios considerados não prioritários, como fertilizantes e biocombustíveis, por exemplo, e colocou à venda oito de suas 13 refinarias.

Em seu plano de negócios, a companhia se vê no futuro com atuação concentrada no Rio e em São Paulo. A diração da empresa já afirmou que pretende reduzir à metade tanto o número de empregados quanto o de edifícios administrativos que ocupa no país.

Os sindicatos questionam, porém, as transferências e demissões em meio à pandemia. Sem contar os funcionários de Santos, estariam sendo transferidos 2.082 trabalhadores da Petrobras em todo o Brasil, afetados pelo fechamento de escritórios e prédios na Bahia, Minas Gerais, Pará, Pernambuco e Ceará, e por hibernações de plataformas e sondas terrestres, sendo a maior parte no Amazonas.

A Folha falou com alguns que passaram por essa situação. “Um petroleiro que mora em um local, com o cônjuge trabalhando na cidade, com estabilidade lá, é informado da transferência, e essa pessoa tem a alternativa de não se mudar, e acaba pedindo demissão. Tivemos relatos disso, gente que pede demissão para não desfazer esse núcleo familiar que já tem”, disse o coordenador da FUP, Deyvid Bacelar.

A Petrobras afirmou que não está realocan do empregados durante a pandemia e que, em razão de adequações operacionais ocorridas em 2020, realizou procedimento administrativo para transferência entre estados de cerca de 400 empregados. Segundo a estatal, apenas 60 desses empregados tiveram efetivadas transferências de lotação que ocasionaram também mudança imediata em suas residências.

A petroleira diz que essas transferências eram necessárias para a manutenção de atividades essenciais desempenhadas pela empresa e apontou que os empregados em atividades administrativas estão em teletrabalho por conta da pandemia até dezembro de 2020. Já os funcionários que atuam em áreas operacionais devem se apresentar na nova localidade a partir de setembro.

Segundo a FUP (Federação Única dos Petroleiros), entre abril e junho também foram dispensados ao menos 9,2 mil empregados terceirizados. O saldo contabiliza apenas os desligados de duas das quatro áreas de atuação. A Petrobras diz que realiza a contratação de empresas prestadoras de serviços e não interfere nas relações entre as contratadas e seus trabalhadores.

 

Fonte: Folha de São Paulo – 21.08.20

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