Colunistas Flavio Picchi

Sem Lean, Industrialização da Construção Pode Ficar no Meio do Caminho

A industrialização da construção vem crescendo no Brasil com uma maior disponibilidade de soluções como sistemas construtivos completos, fachadas, kits de instalações, banheiros prontos etc.

A ideia não é nova. Ela vem desde o período pós-Segunda Guerra Mundial, mas estava relativamente estagnada. Seu interesse e uso vêm aumentando no Brasil e no mundo por diversos fatores como a carência de mão de obra e as pressões cada vez maiores do mercado por elevada eficiência.

Simplificadamente, trata-se de deslocar trabalhos antes realizados nos canteiros de obras para fábricas que produzem e entregam elementos, componentes e sistemas, através de um processo racionalizado. Com isso, diminui desperdícios, reduz prazos, aumenta qualidade e sustentabilidade. A questão do custo, sempre apontada como um limitante para uma aplicação mais ampla, vem evoluindo para situações mais viáveis, principalmente se são considerados o custo total, os desperdícios evitados, o ciclo do negócio etc.

Quase toda apresentação de sistemas construtivos industrializados começa se referindo ao paradigma da manufatura seriada, tendo como maior inspiração o setor automotivo. Um elemento fundamental, nem sempre lembrado, é que o principal modelo de excelência que faz dessa indústria uma referência é a gestão lean, que nasceu na Toyota, espalhou-se para todas as montadoras e cadeias de fornecedores e hoje é adotado em praticamente todos os setores, inclusive na construção.

Entretanto, a utilização do conceito lean associado às iniciativas de industrialização da construção é ainda parcial. Algumas ferramentas são aplicadas em fábricas, certos conceitos de lean construction também estão nas montagens nas obras, mas sem tirar proveito de uma aplicação mais abrangente e sistemática.

Alerto para o fato de que, sem uma implementação profunda do lean em todas as etapas do processo, de forma coordenada, o ideal da construção industrializada nunca estará completo. Um sistema bem concebido tecnicamente, mas sem uma gestão avançada, pode morrer na praia. Aliás, não é raro observar no mercado iniciativas que potencialmente trariam enorme produtividade, mas que mantêm diversos tipos de desperdícios, ao longo de toda a cadeia de valor.

Para evitar isso, alguns conceitos e práticas lean precisam ser incorporados para que tenhamos uma verdadeira industrialização da construção. Aponto seis deles que são essenciais para se alcançar esse objetivo:

1. Fluxo de valor otimizado de ponta a ponta

O uso de sistemas construtivos industrializados depende da total coordenação de todas as etapas do fluxo de valor, desde a concepção do produto e do processo, passando pela fabricação, logística e montagem na obra.

O sistema lean tem vários conceitos e práticas que fazem com que essa coordenação se dê em um nível bastante elevado e produtivo. Um deles é o tempo takt, que se relaciona ao ritmo com que todos os processos e materiais devem fluir para que o sistema entregue o necessário, em fluxo contínuo, sem acúmulos, estoques ou faltas ao longo de toda a cadeia.

Outra ideia muito importante é a do sistema puxado, ou seja, todas as etapas devem entregar somente o necessário, no momento necessário, para que a próxima atividade ocorra de acordo com o ritmo e a sequência ideais na montagem final. É o ideal de fabricação -logística – montagem em pequenos lotes e just-in-time. Em alguns sistemas, a fabricação demora mais que a montagem, o que exige uma produção antecipada e a formação de alguns estoques antes da entrega. Mas o ideal do just-in-time deve ser perseguido, e os processos, repensados, para se aproximar ao máximo dessa sincronização.

A filosofia lean tem como princípio otimizar o fluxo de valor completo, evitando otimizações pontuais que, geralmente, não insuficientes para melhorar os resultados. Para mudar isso, pode-se utilizar a ferramenta do Mapeamento de Fluxo de Valor (MFV). Ela permite uma análise e um desenho de processos desde a matéria-prima até a montagem final, fazendo com que projetos, suprimentos, fabricação e logística trabalhem de forma coordenada para que a montagem, em obra, seja entregue nos menores prazos, conforme demandado pelo cliente.

2. Produto e processo integrados com projeto lean

John Shook, um dos maiores gurus do sistema lean, afirma que esse modelo de gestão aplicado na manufatura deve pelo menos 50% de seu sucesso à etapa de projeto. Ou seja, boa parte da racionalidade dos processos vem dessa fase.

É por isso que se usa o conceito de “Lean Product and Process Development (LPPD). Ou seja, esses dois desenvolvimentos – produto e processo – precisam ocorrer simultaneamente e não sequencialmente.

Na construção tradicional, estamos longe disso. Na industrializada essa ideia em geral está presente. Por exemplo, quando um sistema construtivo é pensado considerando a tecnologia, fabricação, montagem e produto.

No entanto, o conceito lean de LPPD pode ir muito além do que normalmente se pratica se forem utilizadas diversas técnicas. Por exemplo, ao se trazer a “voz do cliente” de maneira muito presente em pequenos ciclos de aprendizado, em target cost, no desenvolvimento de fornecedores chave, desde o início, no projeto, para construtibilidade e na engenharia simultânea.

O processo de projeto também muda com ciclos rápidos de aprendizado, sistema puxado, prototipagem rápida, geração e reutilização de conhecimento e com o líder do projeto com a visão de ponta a ponta.

Isso resulta em produtos mais robustos (com maior qualidade em diferentes situações), em processos que já nascem produtivos e em cadeias de valor concebidas para trabalharem em fluxo contínuo.

O uso de BIM (Building Information Modeling) é indispensável, garantindo a precisão dimensional, a antecipação de possíveis interferências e a simulação de estratégias de montagem.

3. Fabricação com elevada racionalização

A grande vantagem da construção industrializada é a transferência de boa parte do trabalho para um ambiente de fabricação, muito mais controlado e otimizado que o canteiro de obras. Entretanto, isso nem sempre é plenamente aproveitado.

Não é raro vermos fábricas de sistemas construtivos que transferiram para a produção processos muito semelhantes aos que faziam na obra, mantendo muitos de seus desperdícios.

O ambiente de manufatura é onde surgiram os conceitos lean, antes de se espalharem a todas setores e áreas das empresas. É, portanto, a aplicação pioneira e mais madura. Assim, é preciso incorporá-la totalmente na fabricação de componentes e sistemas construtivos, utilizando conceitos e ferramentas lean, tais como: tempo takt, linhas móveis de montagem, células de produção, balanceamento de operadores, trabalho padronizado, desenho de postos de trabalho, equipamentos e ferramentas adequadas, logística interna, set-up rápido, qualidade na fonte, manutenção preventiva, estabilidade básica, fluxo contínuo, planejamento de produção puxada etc.

4. Logística puxada e em pequenos lotes

A conexão entre fábrica e obra, através de uma logística eficiente, é fundamental para que se obtenha uma montagem rápida e de elevada produtividade. A logística lean se baseia em um sistema puxado, com entregas just-in-time, de forma que o fluxo de componentes funcione sincronizadamente. A partir de um plano de montagem que determina a melhor sequência e os ritmos, as peças devem ser entregues acompanhando esse avanço.

Isso passa por uma integração de planejamento desde a liberação de projeto, a programação da fábrica, a produção e entrega. Essa logística deve considerar entregas frequentes e a otimização das cargas, com carregamento feito de forma a facilitar a retirada na obra na sequência de uso, para que as peças sejam erguidas para colocação com um único içamento, evitando manuseios e estoques intermediários.

5. Montagem na obra em fluxo contínuo

O uso dos conceitos lean em obras tem avançado mesmo nas tradicionais. Essas aplicações muitas vezes focam fortemente nas ferramentas de planejamento, com o uso de linhas de balanço, controle semanal e diário, análise de restrições etc. Tudo isso traz um enorme resultado e precisa ser amplamente aplicado na construção industrializada, no sentido de planejar a sucessão de atividades de montagem como um “trenzinho” repetitivo que avança em fluxo contínuo.

No entanto, há um elemento fundamental do lean que é muitas vezes esquecido: a otimização detalhada de como cada trabalho deve ser realizado, para maior produtividade, qualidade, segurança e ergonomia.

É o que chamamos de Trabalho Padronizado (TP), que foca em nível micro a melhor sequência e o balanceamento dos trabalhados, estabelecendo uma verdadeira coreografia para a realização das tarefas no ritmo planejado, com o mínimo de desperdícios.

Isso vai muito além dos padrões ou procedimentos estabelecidos em sistemas da qualidade. Numa montagem de componentes e sistemas industrializados, o TP é indispensável. Ele precisa chegar ao nível de haver um planejamento hora a hora sobre o que deve ocorrer, combinando equipes, materiais e equipamentos. Isso é o que vai transformar a obra numa verdadeira linha de montagem, concretizando a performance ideal da construção industrializada.

6. Sustentação e melhoria de resultados com gestão lean

Lean não se resume apenas a um conjunto de ferramentas, como kanban, trabalho padronizado, células de produção, last planner system etc. Todas elas são importantes, mas se usadas isoladamente tendem a não trazer os resultados esperados e quando trazem em geral eles não se sustentam.

Isso porque o lean é, na verdade, um sistema de gestão que vai além das técnicas e se baseia fundamentalmente nas pessoas. Isso ainda é pouco compreendido na construção tradicional, mas na industrializada essa limitação precisa ser superada.

O que dá vida ao sistema lean é a forma como as pessoas se engajam em todos os níveis na melhoria dos processos, resolvendo rapidamente os problemas assim que eles acontecem. A filosofia lean traz mudanças no sistema de gestão e em como as lideranças interagem com as equipes, através de novos comportamentos e rotinas.

Um elemento importante nesse aspecto é o que chamamos de Gerenciamento Diário (GD). Ele se aplica em todas as etapas, seja no projeto, fabricação, logística ou obra. Com o GD, cada grupo de trabalho tem clareza sobre o que deve fazer, em que ritmo, qual o padrão para isso e como controlar visualmente qualquer desvio. Em rotinas diárias, as equipes discutem os eventuais problemas e buscam as causas raízes. A liderança apoia para que os obstáculos sejam removidos e desenvolve as pessoas para que solucionem os problemas com método científico.

Esse modelo de gestão possibilita que, através do engajamento de todos, o sistema, em primeiro lugar, funcione e depure desvios até entregar plenamente os resultados. Em segundo, ele garante que haja evolução contínua.

Ao se trazer o paradigma industrial para a construção é necessário fazer isso por completo. Só apostar em tecnologia, sem utilizar a gestão industrial avançada, é insuficiente. A construção não pode negligenciar o aprendizado histórico da manufatura e tem muito a ganhar se buscar o entendimento, a aplicação e o aprofundamento do sistema lean nas iniciativas de industrialização de maneira ampla e profunda.

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