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Arquiteto do Rock in Rio e da Cidade do Samba lança livro sobre seus trinta anos de carreira

João Uchôa projetou estruturas que modificaram a arquitetura de várias cidades. Seu livro, P.A. 11, tem lançamento digital em 16 de junho.

Determinação e talento marcam a trajetória do arquiteto, João Uchôa.

Seus múltiplos talentos revelaram-se desde cedo. Aos 5 anos, pintava quadros, aos nove fez uma exposição com 45 telas a óleo, na juventude dedicou-se ao surfe, à moda e ao teatro. Durante seis anos, foi diretor artístico da TV Búzios e da Rádio Búzios FM. De volta ao Rio no início dos anos 90, o sobrinho do fundador da Estácio – uma das maiores Instituições de Ensino Superior do País – se uniu à tradição familiar na educação, deixando seu legado também na companhia, onde criou o Núcleo de Comunicação e a Faculdade de Cinema da Estácio, no Rio de Janeiro.

Nos últimos 30 anos, a arquitetura autoral tem sido a grande companheira de vida de João Uchôa. À frente da CICLO Arquitetura, ele assina projetos singulares, como os principais palcos e estruturas do Rock in Rio, a Cidade do Samba, o BioParque do Rio (antigo RioZoo), o Bar do Zeca, Centro de Treinamento do Flamengo, Hotel Le Canton e muitos outros. Em 2013 ele projetou o palco da missa do Papa Francisco em Guaratiba, no Rio.

São cenários e edificações que ajudaram a mudar a paisagem urbana em diferentes cidades e espaços públicos.

Essa trajetória profissional agora é contada em livro, reunindo trechos autobiográficos e dicas para jovens arquitetos.

O Portal C3 conversou com o talentoso arquiteto João Uchôa que lança hoje (16/06), sua biografia em formato e-book nas plataformas da Amazon, com patrocínio da Estácio e do Rock in Rio e apoio da Lei de Incentivo à Cultura, da Secretaria Especial de Cultura.

Confira:

Créditos: Divulgação.

Portal C3- O título do livro faz referência a algum momento da sua carreira?

João Uchôa – Sim. PA, ou Projeto de Arquitetura, é a disciplina acadêmica de PROJETO que corre por 10 períodos na formação universitária. O 11 seria o que vem depois do curso da formação acadêmica. A Rua!! Por isso também o “RALAÇÃO” no subtítulo do livro.

Portal C3 – A obra é direcionada para qual público?

João Uchôa – Foi escrita para o público jovem que se relaciona com arquitetura, design, engenharia e entretenimento. Tem assuntos que correm por essas especialidades. Mas deixo claro que o foco do livro é falar sobre a atividade profissional de forma geral. Conceitos como Diplomacia, Crítica, Ética, Time, Amadurecimento e Paciência, entre outros, dão nome a capítulos do livro que tratam muito mais de atitudes do que necessariamente de uma atividade técnica específica.

Espaço Favela, Rock in Rio 2019. Créditos: TV Globo.

Portal C3 – Em 30 anos a arquitetura autoral tem sido sua grande companheira.  Hoje os projetos exigem uma boa aparência do empreendimento para conquistar clientes, residenciais ou comerciais. É uma tendência para o mercado?

João Uchôa – Historicamente, a imagem de um projeto sempre buscou refletir um status de arte e qualidade. Temos monumentos milenares espalhados pelo mundo que são referência e ajudam a contar nossa história. É uma meta buscar uma imagem que comunique os principais conceitos de um produto e que valorizem seu conteúdo. Mas sem nunca esquecer a sua função. Melhor ser feio e funcionar bem do que ser um projeto lindo que não atende ao seu público-alvo e não garante eficiência operacional. Mas acho também que um projeto pode ser uma bela e importante obra de arte. 

Folha gigante que flutuou sobre o Rio Negro durante o Amazônia Live. Créditos: Divulgação.

Portal C3 – Seus projetos ajudaram a mudar a paisagem urbana em diferentes cidades e espaços públicos. Qual a maior dificuldade em idealizar projetos onde existe a conexão entre espaços e pessoas?

João Uchôa – Acredito que todos os projetos devam buscar uma conexão harmoniosa e estimulante entre espaço, seres vivos e o meio ambiente no qual estão inseridos. Isso não quer dizer que teremos que copiar detalhes do entorno. Por exemplo, o Museu Guggenheim de Bilbao não tem nenhuma relação com a arquitetura de seu entorno. Mas a forma de uma escultura gigante garantiu os objetivos de alavancar a marca e a imagem da cidade. O fluxo de turistas cresceu vertiginosamente e novas e impactantes obras se seguiram na cidade. Como uma Inhotim urbana em grande escala. O Centro Cultural Georges Pompidou, em Paris, é outro exemplo de como a arquitetura, o design e a arte funcionam como excelentes instrumentos de prosperidade cultural para uma cidade.

Portal C3 – Atualmente o que o mercado exige do novo profissional de arquitetura?

João Uchôa – O mercado sempre vai abraçar profissionais que sejam trabalhadores, responsáveis, ágeis, corretos, confiáveis, de relacionamento fácil e que gostem do que estão fazendo. Serve para qualquer profissão. Mas é preciso também aprender a se relacionar com terceiros, de preferência ser uma pessoa agradável, que sabe ouvir críticas com facilidade, sem vaidades pessoais e que sabe escolher o que é bom para o produto que ele esteja envolvido. Tudo isso é mais importante que talento na hora de conquistar o mercado. Na rua, é preciso aprender a lidar bem principalmente com as pessoas. Ainda são elas que fazem as coisas acontecerem. 

Créditos: Divulgação. 

Portal C3 – Qual a situação dos seus projetos em meio à pandemia e a quarentena? O que um profissional aprende com as dificuldades inesperadas (Covid-19)?

João Uchôa – Com o início da quarentena, alguns negócios pararam, outros surgiram e continuamos tocando os nossos projetos internos. Apesar da situação muito triste das perdas, não podemos desistir. Vivemos em um país em desenvolvimento  com uma infraestrutura precária e níveis de educação lamentáveis, o que só piora a situação. Mas todos temos filhos, parentes e amigos. Precisamos seguir na nossa caminhada e poder fazer o melhor da nossa capacidade para superar as crises. Em 30 anos de escritório, já sobrevivi a várias crises. Muitas vezes saímos desgastados e com um passivo enorme de pendências econômicas e sociais a serem resolvidas. O que só prorroga os momentos de crise. Mas não podemos desistir nem nos deixar abater. Temos que arregaçar as mangas, estender as mãos para os que nos cercam e seguir celebrando a vida. Com respeito, consciência e paixão, vamos retomar as nossas atividades e certamente, melhores um pouco. São lições que tiramos da crise. 

Tecnicamente, ganhamos muito com a descoberta do enorme potencial do que temos nas mãos.  Os telefones celulares e as redes de comunicação se ligaram como nunca antes foi experimentado.  Reduzimos o volume de deslocamento e ganhamos em qualidade de vida. Esse formato de operação de empresas e negócios vai ficar. As reuniões presenciais vão cair de moda. Será uma estupidez uma empresa autorizar um “bate-e-volta” do Rio para São Paulo. Basta apertar um botão de casa mesmo e será bem recebido na reunião. Isso pode mudar totalmente o conceito de fluxo dentro de uma cidade. Precisamos reduzir o espaço das ruas reservados para veículos e substituir por calçadas largas, parques e ciclovias. Considero o carro um dos grandes vilões das grandes cidades. Hoje eu vejo mais um instrumento para o cidadão voltar a ter espaço para caminhar com conforto e sobra para se deitar sob as árvores. 

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