Paulo Oliveira

A construção modular nos EUA busca a expansão. E no Brasil? Como lidamos com este tema?

Escrito por: Paulo Oliveira – CEO na Aratau Construção Modular, e embaixador de Construção Industrializada no C3 – O Clube da Construção Civil.

  • INTRODUÇÃO

No cenário da Construção Modular, as diferenças entre os Estados Unidos e o Brasil são notáveis. Nos Estados Unidos, um amplo espectro de soluções de crédito, investimento e apoio à tecnologia e inovação está disponível para acelerar o desenvolvimento de construtechs e para estruturar financeiramente empresas fabricantes de produtos. 

Essa abordagem é fundamentada em um planejamento estratégico sólido e na expertise de profissionais experientes no nível executivo (C-Level) para gerenciar essas operações.

No entanto, no Brasil, lamentavelmente, essas questões ainda não estão bem resolvidas. Navegamos em mares turbulentos, buscando sensibilizar fundos de venture capital, investidores e programas de investimento público que financiam projetos de desenvolvimento tecnológico e inovação. 

O desafio é desenvolver soluções de crédito e investimento específicas para construtechs hard de Construção Modular (que entregam produtos), especialmente no estágio inicial (antes da entrega do MVP ou Produto Mínimo Viável). Infelizmente, não existem soluções que contemplem construtechs hard nesse estágio, o que nos coloca em risco de travar a evolução da industrialização em nosso país.

Sumarizando, enquanto essas questões permanecem desafiadoras no Brasil, nos Estados Unidos os recursos para investimento são disponíveis e fartos.  Por essa razão, os americanos têm se preocupado em impulsionar a expansão da indústria de Construção Modular, com o objetivo de atingir 10% de market share no mercado de casas. 

Fig 1 – Produção modular robotizada (EUA) | Créditos: New Atlas

 

  • DESAFIOS E OPORTUNIDADES

Este tema foi abordado recentemente por Gary Fleisher, editor-chefe da revista Off-site Builder, um profissional experiente no segmento de Construção Off-site e Modular. Seu histórico abrange consultoria, gestão, planejamento e desenvolvimento de negócios neste campo dinâmico. O Gary é, muito provavelmente, o principal observador e analista das indústrias de Construção Modular, voltadas para o mercado habitacional nos Estados Unidos.

No entanto, é interessante observar que mesmo nos Estados Unidos, onde a industrialização está em estágio avançado e os custos de mão de obra são significativamente mais altos do que no Brasil, a participação de mercado ainda é baixa e a Construção Modular, apesar das vantagens, enfrenta desafios em sua adoção generalizada.

Enquanto isso, a escassez de trabalhadores especializados no setor de construção brasileiro está gerando uma disputa acirrada por equipes experientes em áreas como carpintaria, armação, instalações prediais e acabamentos. Isso, por sua vez, inflaciona os custos de mão de obra e representa uma oportunidade para a expansão da Construção Modular no Brasil.

Fig. 2 – Tiny House Tetti (Brasil) | Créditos: Marcelo Sacco

 

  • A EXPANSÃO DA PARTICIPAÇÃO DE MERCADO NOS EUA

Gary Fleisher estima que a participação de mercado atual da Construção Modular nos Estados Unidos é de 3%. Atualmente, de 50 a 100 fábricas de Construção Modular operam nos EUA, em diferentes níveis de maturidade. É notável como o número exato de unidades fabris permanece desconhecido, mas isso reflete a natureza dinâmica desse setor em constante evolução, que tem experimentado forte expansão nos últimos anos. 

No entanto, Gary destaca que, com a crescente demanda por moradias acessíveis, sustentáveis e de construção rápida, o segmento de Construção Modular deverá realizar um crescimento significativo nos próximos anos.

Vamos transformar esses percentuais em números concretos: nos EUA, 1,5 milhão de casas novas são entregues anualmente. No entanto, o número de casas modulares contribui com apenas cerca de 45.000 unidades nesse total. Para atingir a meta ambiciosa de 10% de market share, será necessário produzir mais 105.000 unidades habitacionais adicionais.

Essa expansão requer não apenas a ampliação das unidades fabris existentes, mas também a instalação de novas fábricas em regiões estratégicas do território americano. Essa empreitada exigirá investimentos significativos dos setores público e privado, estimados em cerca de US$ 14 bilhões.

Figura 3 – Içamento de Módulo 3D para edificação vertical | Créditos: Building a sustainable future: understanding circularity in construction (www.inogenalliance.com)

 

  • DIFERENÇAS ENTRE O CENÁRIO AMERICANO E O BRASILEIRO

Apesar do montante expressivo que será investido nos EUA, diferentemente do Brasil, o país possui modelos de crédito, financiamento e investimento adequados para a Construção Off-site e Modular, atendendo inclusive novos entrantes (fabricantes). 

O acesso mais facilitado à recursos tem motivado alguns empreendedores brasileiros a investirem na Construção Modular nas terras do Tio Sam. Além disso, incentivos governamentais e políticas públicas voltadas para a simplificação dos processos regulatórios e da burocracia, estão sendo discutidas para garantir que novas fábricas possam ser construídas e entrem rapidamente em operação. 

Retornando ao contexto brasileiro, é importante destacar projetos como o Construa Brasil (MDIC) e o Construção 2030 (CBIC + SENAI), que trabalham em prol destas questões. Com foco na desburocratização, no aumento da digitalização e na industrialização da construção, as referidas iniciativas visam conscientizar sobre a urgente necessidade do setor se reinventar, e de que o futuro da construção é a Construção Modular. 

 

  • CONCLUSÃO

Em um futuro não tão distante, para suprirmos o crescimento da demanda, não haverá outra forma de produzir edificações se não com sistemas Modulares e Off-site.

Temos um déficit habitacional considerável no Brasil e precisamos olhar para esta questão com enorme atenção e responsabilidade, aumentando substancialmente a produtividade e, consequentemente, a capacidade de entrega. 

A isonomia tributária, aliada aos ganhos de produtividade, permitirão a obtenção de menores custos por metro quadrado dos produtos industrializados. 

A questão é estratégica para o país. Programas públicos voltados para a educação, saúde, transportes, habitação, infraestrutura e serviços públicos precisam contemplar a construção industrializada. Isso gerará demanda e escala para que possamos ter um segmento de Construção Off-site e Modular robusto e em constante evolução.

Trata-se de uma indústria com elevada capacidade de inovação. A sua expansão estratégica impulsionará os avanços tecnológicos, não somente para atender à crescente demanda por edificações mais leves, eficazes, inteligentes e sustentáveis, como também para colocar o Brasil em evidência e apto a explorar o mercado internacional de Construção Off-site e Modular.

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